quarta-feira, 5 de março de 2014

Antes que eu me perca por aí

As pessoas se vestem em noites quentes
Apenas pra se despir em braços frios
Eu não me contentaria com tão pouco
Se não sentisse muito, pode apostar
Não me dê motivos pra chorar
E te darei motivos pra ficar
Antes que eu me perca por aí
E esqueça porque eu insisto em lembrar você

As pessoas jogam esse jogo estúpido
Por uma vitória que as esvaziam
Dormem seus sonhos dourados em camas desfeitas
Perfeitos acúmulos de fantasias recém-satisfeitas
Emboladas sob nossos corpos suados
Acredito que poderíamos ser bem mais que isso
Antes que eu me perca por aí
E esqueça porque eu insisto em querer você

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Meu amor não é confiável

Após a tempestade, o vento sopra manso, plantando uma certeza que julguei nunca ser capaz de sentir. Agora quem duvida é você. Terei de me acostumar à fome de tudo o que nunca viverei ao seu lado, com a sede desse sentimento recém manifesto, condenado ao exílio sem a chance de ser compartilhado, perdido em algum lugar do futuro que um dia será dito passado. Num lugar reservado aos momentos não vividos e sonhos não realizados, desejos frustrados, anseios banidos, amores fracassados. Um dia veremos com clareza, cada um com sua versão consolidada do nada que nos tornamos, do silêncio ensurdecedor que nos unirá pela eternidade, porque não trocaremos essa brisa cálida pelo risco de um novo furacão. Melhor uma cicatriz que outra ferida exposta. Meu amor não é confiável. Não... Não... Não é confiável, querido. Siga sua nova vida segura. O que tenho pra nós é avassalador demais, é intenso demais, é uma entrega sem limites, é algo que você não ousará repetir por mim. Meu amor não é confiável, e eu entendo sua prudência. Não quero te machucar nem meia vez mais. Nesse campo incerto e fluido do amor não há garantias, meu bem. Há vontade, há ardor, há coragem, há certeza do que habita este coração. Mas garantia é atributo que mora pra lá do vale da razão, a mesma que me afasta de você. E assim, vamos deixando a paz criar raiz entre nós. Vamos mantendo como está. Foi uma conquista árdua, não vamos perdê-la de vista. Ela ameniza nossos rancores e conserva nossa sanidade, nos permite conviver com uma verdade que já não dói. Até porque, já houve dor o bastante para uma existência. Muitas mais nos esperam, e eu serei capaz de guardar calado todo o amor que ainda tenho pra te dar. Agora é minha vez de esperar, enquanto você respira de mim... aliviado.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Me declaro inocente

Culpada por escolher ser feliz
É o que diz seu julgamento
Porque no momento eu sou ré
Você não quer que o sol brilhe pra mim
Você me quer assim, tão opaca quanto o seu ciúme
Flor morta, sem viço e sem perfume

Condenada por uma decisão demorada

Fruto de uma dor que lhe foi invisível
Mas que rogava ser exortada
Fico agora exposta ao seu repúdio
Como o prelúdio de um desfecho mortal
Como se eu só prestasse ao seu lado, e ponto final

Não vou me deixar limitar

Não permito rótulos
Eu posso chorar enquanto minha boca sorri
Posso até me calar... e me aliar ao silêncio
Que ocupou tudo por aqui
Mas, enquanto sigo meu coração
(E apesar de entender o que sente)
Me declaro inocente

Talvez um dia você me entenda...

domingo, 8 de setembro de 2013

Grafite

A gente fica se admirando
Eu te conduzindo
Você desenhando
Palavras que meu pensamento
Em desalinho e desalento
Mal acabaram de lapidar

E é numa preguiça gostosa
Que a gente se deixa ficar
Dedos entrelaçados ao seu redor
Ditando o ritmo que eu preciso
Pra deixar riscos concisos
Traços precisos, olhos perplexos

Você exprime meu reflexo com maestria
Antes nada se via
De repente, me encontro refém
Tenho minh'alma derramada
Traduzida, esculpida, impressa
Em folha pautada

Perco a noção do tempo
Te anoiteço e logo é dia
Eu queria sempre assim
Você me traduzindo
Enquanto me seduz
Despindo meus medos
Expondo meus segredos

Sempre ao meu alcance
Ainda que eu te use
Sempre disponível
Ainda que eu abuse
E te consuma por inteiro
Você não foi o primeiro
Mas te possuo como se fosse o último

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

...

Às vezes, à noite, eu quero chorar e gritar muito alto, mas aí eu durmo e, então, faz silêncio outra vez. Sinto sua falta, e esse sentimento vai se demorar no meu peito... 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Doce e momentâneo

Quero sorrir você
Colorir nossa amizade
De verde, que é sereno
Vermelho-cor-da-minha-vontade

Quando o sol sair
Serei comediante
E quando você dormir
A melodia no contratempo
Do seu ronco irritante

Porque eu já sei que você ronca
E eu nem ligo

Um instante a sós contigo
Talvez dois
Ou nunca mais
O resto é só depois

Quero meus pés no chão
Mas descalsos
Quero seus passos livres
E não no meu rastro

A gente já sabia
Bem antes de se conhecer
Embolados numa cama macia
Rindo por não termos nada a ver

Dois amantes sem futuro
Se demorando num quarto escuro
Ou no banco de trás
Tanto faz

Contanto que seja espontâneo
E seja leve, ainda que breve
Doce e momentâneo

sexta-feira, 5 de julho de 2013

No deserto da minha alma

Esse silêncio que faz quando você sai... Esses tantos olhares ávidos fitando o que ficou pra trás. A confusão que impera em meio a um eco mudo de gritos dissonantes. Minha voz como um baque surdo, como um alerta que urge querer consertar o que lhe parece intacto. Um soluço anônimo, um impulso despretensioso, uma nova tentativa, e então outra. Uma sequência cíclica de ritos viciados, um apego demasiado. Mas a que? Adormeço meu pranto e sonho que era só sonho, e no dia seguinte me sinto confortada por alguns instantes da paz dormida, e depois acordada. Esse silêncio que faz quando você chega... A fuga do confronto maculando minha sanidade, o interstício entre a conveniência e a verdade. Por que insiste em fechar os olhos e me deixar às cegas para morrer numa batalha sem causa? Ou, se não há mesmo nada diante de seus olhos lúcidos, talvez esteja eu sozinha no deserto da minha alma.